UM COLO PARA DOIS
3/5/20252 min read


Desde pequeno, ouço as pessoas perguntarem como minha mãe conseguiu cuidar de duas crianças ao mesmo tempo. Duas trocas de fraldas, duas mamadeiras, dois banhos, dois choros. E ela sempre responde que foi tranquilo, pois nunca demos trabalho. Fico feliz em saber que é assim que ela percebe todos esses anos de cuidado, mas ainda penso que ser mãe de gêmeos não deve ser nada fácil.
Nas vezes em que eu e meu irmão ficamos doentes na infância, acredito que foi mais difícil para minha mãe do que para nós. Quando um estava melhorando, o outro adoecia em seguida. As dores em casa se estendiam, e o tempo de remédios, chás e preocupação parecia não ter fim. Minha mãe sabia as melhores combinações de remédios para a febre passar ou para aliviar a dor. Ela atribuía isso à experiência que teve quando era mais nova e trabalhou em uma farmácia. Mas era claro como ela se desdobrava para não nos ver sofrendo. Aprendi com ela que a dor de um filho dói na mãe.
Há poucos meses, minha mãe se aposentou. Depois de anos dedicando parte do seu tempo ao trabalho, agora direciona-o para si mesma. Os filhos já não estão em casa, embora as portas do lar estejam sempre abertas. Devido à distância, as chamadas de vídeo nos aproximam. Acompanho de longe suas idas à academia, às consultas médicas e ao salão de beleza. Às sextas-feiras, ela aparece com o cabelo escovado e as unhas feitas. Aproxima as mãos perto do seu sorriso e mostra a cor da vez. Nas mensagens de WhatsApp, várias fotos com o "look do dia".
Esses dias, ela me ligou e mostrou suas plantas no sol. Falou especialmente de uma orquídea, que precisou mudar de lugar porque não estava florescendo onde havia colocado. Questionou se estava cuidando corretamente da planta, mesmo sabendo que cuidar é o que ela faz de melhor. Bom que, hoje, ela cuida mais de si mesma do que de mim. É sua forma mais bonita de cuidado. Um colo para dois, que agora se acolhe.