OS RASTROS DA CHUVA

3/5/20252 min read

O tempo fechou por aqui e, rapidamente, fechei as portas e as janelas. Lembrei-me de quando era criança e minha mãe nos chamava para entrar em casa assim que o tempo de chuva começava a se formar. Era hora de fechar tudo, tirar os aparelhos eletrônicos da tomada e ficar em silêncio. "Escuta", ela dizia. Naquela casa silenciosa do sítio, eu ouvia a chuva e a minha própria respiração. Minha mãe se preocupava em manter o silêncio. Ficávamos ali, esperando a chuva passar.

Com o sol já começando a aparecer e um arco-íris refletido na poça d'água que a chuva deixara, minha mãe abria as portas e janelas, enxugava a água que ficou na área e comentava sobre os rastros da chuva. Por algumas horas, ela relembrava os detalhes do trovão mais forte e o barulho que a chuva fazia na janela.

Hoje, a chuva passou por aqui, me silenciei e ouvi a minha respiração. Assim como fazia quando criança. Depois de um tempo, liguei para minha mãe e ela logo comentou que a chuva havia sido forte por lá também. Contou sobre os rastros da chuva, mostrou a terra molhada e o céu agora todo azul. Minha mãe sempre se preocupou com a chuva. Ela se atentava a tudo e torcia para que nada de muito grave acontecesse. Tentava nos proteger, fechava a casa e nos acolhia. Em silêncio. Ouvindo nossa própria respiração.

Acho que hoje entendi o real motivo dessa preocupação toda. Minha mãe me orientava a escutar. Daquelas vezes, eu escutava a vida que havia em mim, através da minha respiração. Hoje, passo o dia escutando a vida que há em meus pacientes. Como um dia de chuva, na terapia damos uma pausa ao mundo e escutamos o que há dentro de nós. A vida que há em nós. Talvez, quando criança, tenha dado os primeiros passos em direção à minha atual profissão, que tanto preza pela escuta.