HISTÓRIAS QUE ATRAVESSAM O TEMPO

3/9/20252 min read

Sempre gostei de ouvir histórias. Cresci cercado por elas, tanto na família do meu pai quanto na da minha mãe. Não me refiro às conversas comuns, sobre o dia-a-dia ou comentários soltos sobre um assunto ou outro. Eram histórias narradas com tom e ritmo, conduzidas por alguém que sabia os detalhes de algo que merecia ser lembrado. Histórias com começo, meio, suspense, risadas e fim.

Recordo do velório da minha bisavó. Ela já tinha 97 anos quando morreu, e os últimos anos de sua vida foram passados acamada, como se o próprio corpo já anunciasse, em silêncio, que seu tempo estava chegando ao fim. Quando aconteceu, ninguém foi pego de surpresa.

O velório aconteceu numa pequena capela no centro da cidade, pintada de azul-claro e branco, com uma porta de madeira grande que precisava de força para ser fechada. Eu tinha cerca de 10 anos e, naquela idade, a morte da bisa foi uma das primeiras vezes em que me deparei com o fim da vida. A capela ficou cheia durante boa parte da noite, mas com o passar das horas, o movimento foi diminuindo. Ficaram apenas alguns familiares, formando uma única roda ao redor da bisa. A porta foi fechada, tanto para conter o frio da madrugada quanto para respeitar o silêncio da vizinhança que já dormia.

Ali, naquela ocasião tão incomum e com tantas horas pela frente até o horário do enterro da bisa, o clima era diferente daquilo que eu imaginava ser um velório. Não houve choro nem lamentações — em vez disso, a madrugada foi preenchida por histórias. Os tios relembravam os antepassados, contando com riqueza de detalhes sobre suas vidas e mortes, como se, ao narrá-las, trouxessem de volta aqueles que já não estavam ali. Naquela noite eu pude conhecer um pouco mais sobre a história da bisa e de outros familiares que já haviam partido.

O velório da bisa não foi marcado por lamentos ou choros prolongados. Havia certa serenidade no ar, como se todos compreendessem que sua partida fazia parte do curso natural da vida. Aprendi depois que algumas mortes são mais fáceis de aceitar. Se é que existe uma forma justa de morrer, talvez tenha sido a da bisa. Sua saúde já não permitia mais, e ela havia vivido o suficiente para ver filhos, netos, bisnetos e até tataranetos crescerem. Seu tempo simplesmente se esgotou. Diferente de tantas outras partidas que parecem abruptas demais, arrancando alguém do mundo antes da hora.

Naquela noite, talvez tenhamos passado mais tempo reunidos do que nunca, transformando a despedida da bisa em uma extensão do que a família sempre fez de melhor: contar histórias. E, entre uma lembrança e outra, era como se a mantivéssemos um pouco mais presente através das palavras.

Afinal, durante a vida, o que fazemos é contar nossa história — e, mesmo depois que partimos, ela continua a ser contada por aqueles que ficam. Compreendi que ninguém se vai por completo enquanto há quem se lembre, quem fale, quem continue a contar.