HÁ HISTÓRIAS NO CAMINHO

3/5/20252 min read

Meu pai é um homem das caminhadas. Recordo-me de que, aos finais de semana, ele chegava em casa com o tênis empoeirado e, de forma ofegante, contava os quilômetros que havia percorrido. Saía junto com o nascer do sol e retornava perto da hora do almoço. Sempre admirei o tanto que ele andava, pois, para mim, mais que uma hora de atividade física já era um exagero. Com suas pernas longas, marcava seus passos nas estradas de terra.

Certo dia, chegou em casa contando que descobrira a nascente de um curso d'água, que teria a água mais limpa que ele já havia visto. A maneira como meu pai descrevia fazia meus olhos curiosos brilharem, e eu ansiava para ver aquela beleza de perto. Lembro que, em um dia, ele nos levou até lá. Calçamos nossos tênis e usamos duas meias, por indicação dele. Para ele, quanto mais meias, mais confortável era o caminhar. Seguimos seus conselhos e uma estrada de terra que parecia não ter fim. Daquelas que você olha para o horizonte e o marrom do chão se mistura com o azul do céu. A paisagem verde e o canto dos pássaros nos acompanhavam. Pelo percurso, diferentes espécies de flores surgiam à nossa vista.

Apesar de toda aquela exuberante paisagem, meu pensamento estava fixo na nascente d'água. Lembro de ter perguntado no mínimo umas três vezes se já estávamos chegando. A ansiedade em encontrar aquela descoberta me tomava. E meu pai não me enganava. Ele sempre deixava claro que ainda andaríamos por um bom tempo. Então, ele começava a comentar calmamente sobre os lugares por onde passávamos. A plantação de bananas à direita da estrada era assunto para pelo menos 300 metros. Depois, a estufa de flores que surgia logo à frente, era a pauta da vez. E assim por diante. Ele descrevia com minúcia cada passo que dava. Quando a paisagem não oferecia histórias, ele resgatava os causos de sua vida para compartilhar. O caminhar era acompanhado de histórias.

Até que finalmente chegamos à nascente, e, realmente, era um encanto. Uma corrente de água transparente e abundante. Admiramos aquela maravilha da natureza e bebemos da água fluída. Me extasiava ainda mais saber que a nascente surgia como um presente da natureza. Um lugar que jorra água em demasia é uma preciosidade nos dias de hoje. O momento de contemplação foi interrompido quando ele avisou que precisávamos retornar, pois o almoço precisava ser preparado. No caminho de volta, pensei sobre o pouco tempo que havíamos passado na nascente, sendo que fomos exclusivamente para vê-la. Poderíamos ter ido de carro e ficado mais tempo lá. Mas, ao refletir, percebi que, por mais que a nascente fosse uma grande descoberta para meu pai e que ela tivesse todo seu encanto, o que ele realmente gostava era do caminho até lá. Não é à toa que ele comentava sobre tudo que via pela frente.

Enfim, poderia concluir dizendo que aprendi sobre a importância de contemplar a beleza durante o percurso, mas isso seria um grande clichê. E, na verdade, seria um sério engano. Às vezes, a beleza está no percurso, mas nem sempre. A vida, muitas vezes, é injusta. Nos coloca pedras fáceis ao tropeço. Mas afirmar que “há histórias no caminho”, isso sim posso dizer. Nunca mais voltei à nascente, mas sigo bebendo das águas valiosas que um dia meu pai me apresentou.