ALÉM DA VISÃO

3/5/20251 min read

A miopia me acompanha desde a época do colégio. Tive dificuldades para enxergar o quadro e logo recorri a um par de óculos. Os anos se passaram, e os graus de miopia e as exigências escolares aumentaram em iguais intensidades. Os óculos me socorreram. Facilitaram as leituras e os estudos.

Há alguns anos, me autorizei a iniciar um processo terapêutico e, como um clássico estudante de Psicologia, tentava teorizar e conceituar aquilo que acontecia comigo. Chegava ao consultório e observava os detalhes dos móveis, dos quadros, dos livros. Criava em meu imaginário como seria a minha própria clínica. Às vezes, a mochila da faculdade me acompanhava. De vez em quando, relatava as experiências dos primeiros atendimentos.

Num fim de tarde, depois de um dia cansativo, fui para a terapia. O corpo e os óculos pesavam. Não olhei para nada do consultório naquele dia. Estava cansado, exausto. Cochilei na sala de espera e entrei para a sessão. Sem perceber, tirei os óculos e os coloquei ao canto do divã.

Neste dia, falei sobre o que me cansava. Das insistências. Das repetições. Dos medos. Dos tropeços. E, ao falar, reparei em mim. Me vi. Foi preciso tirar os óculos, que me ajudaram a entender as teorias psicológicas, para que eu pudesse realmente me olhar. Por outra perspectiva. Às vezes, o que mais precisamos enxergar é aquilo que os nossos olhos não dão conta. Por mais que os óculos de grau me ajudassem a enxergar o mundo, o que eu precisava era ver o (meu) mundo de uma outra forma.